BNAmericas – 18.jun.2026 | O leilão de reserva de capacidade (LRCAP) para sistemas de armazenamento de energia representa um passo importante para a expansão das baterias no Brasil, mas o avanço do setor ainda depende de definições regulatórias e de mecanismos adequados de remuneração.
Essa é a avaliação de executivos que participaram de um painel sobre o tema no Encontro Nacional dos Agentes do Setor Elétrico (Enase), na quinta-feira (18 de junho), no Rio de Janeiro.
O presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), Markus Vlasits, classificou o certame como um marco para o segmento.
“O MME, de forma muito adequada, decidiu adotar modelo semelhante ao do LRCAP. Nesse contexto, está pacificado que a remuneração será pela potência”, afirmou.
Segundo Vlasits, o modelo oferece maior segurança jurídica ao concentrar a remuneração em uma única fonte de receita, embora não contemple o chamado empilhamento de receitas, frequentemente considerado uma alternativa mais eficiente para a monetização dos ativos.
Ele chamou atenção para a exigência de conteúdo local no primeiro dos dois dias do leilão.
“Precisamos, conjuntamente como setor, fabricantes e bancos, assegurar que essa oferta esteja disponível,” alertou.
Vlasits ponderou que projetos fabris não se definem em função de apenas um leilão e que, por isso, o governo deveria formalizar uma estratégia de médio e longo prazos.
O executivo acrescentou que, no longo prazo, a expansão do armazenamento dependerá de sinais econômicos mais adequados. Ele assinalou que consumidores com geração distribuída ainda utilizam as redes de transmissão e distribuição como uma “bateria gratuita”, enquanto projetos merchant de geração centralizada permanecem limitados pelos atuais níveis do preço de liquidação das diferenças (PLD).
De acordo com Vlasits, o Brasil conta atualmente com cerca de 1GWh de baterias em operação. Uma parcela relevante está associada à eletrificação rural, enquanto outro segmento em expansão é o de sistemas instalados atrás do medidor, utilizados principalmente por consumidores do mercado livre em média tensão.
O executivo também destacou o caso da planta da ISA Energia em Registro, no estado de São Paulo, além de sistemas de armazenamento acoplados a usinas de geração, que começam a ganhar tração.
Vlasits acrescentou que iniciativas voltadas à geração para sistemas isolados na Amazônia devem impulsionar a instalação de centenas de MWh de baterias em regiões onde o custo da geração é elevado. Ele também apontou oportunidades nos segmentos de micro e minigeração distribuída (MMGD) e aplicações off-grid.
“Em uma estimativa bastante conservadora, acreditamos que o mercado de BESS será um mercado de R$80-90 bilhões [US$15,4-17,3bi) até 2034,” frisou.
Regulação e flexibilidade – O diretor de estratégia e inovação da CPFL Energia, Bruno Monte, afirmou que as soluções de flexibilidade proporcionadas pelo armazenamento estão entre os temas mais relevantes atualmente para o setor elétrico.
A empresa já desenvolveu, no país, projetos em escala piloto em diferentes segmentos, incluindo sistemas de armazenamento associados a parques eólicos, projetos conectados às redes de distribuição em média e baixa tensão e uma microrrede integrada à geração solar fotovoltaica.
Monte destacou um projeto implantado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que combina armazenamento, geração fotovoltaica e uma turbina a gás. O sistema atende aproximadamente 10% da carga da universidade.
“Ao entender melhor a tecnologia, podemos compor um capex mais eficiente paraum projeto de um porte maior, que são os que vão para a leilão,” disse a jornalistas após sua apresentação.
O executivo não vê a exigência de conteúdo local como um fator que reduzirá a competitividade do certame.
“Ao estabelecer duas datas, eu acho que o governo conseguiu equilibrareventual risco de conteúdo trazer alguma dificuldade,” argumentou.
Para o executivo, o próximo desafio consiste em definir mecanismos regulatórios capazes de remunerar adequadamente os diferentes serviços prestados pelas baterias ao sistema elétrico.
Capital disponível – O diretor executivo de project finance do Santander, Wilson Assofra, afirmou que o mercado financeiro já considera os projetos de armazenamento financiáveis.
Segundo ele, existe capital disponível para o setor, especialmente em um momento em que os investimentos em projetos solares e eólicos perderam parte do dinamismo observado nos últimos anos.
“O BESS é financiável. Tem capital disponível para isso”, afirmou.
Assofra disse que ainda existem pontos regulatórios que precisam ser esclarecidos para reduzir incertezas, mas ressaltou que o setor já superou a fase de validação tecnológica.
“Não estamos em fase de experimentação pura, mas tampouco estamos em escala. O capital está disponível. Não há mais dúvidas tecnológicas”, afirmou.
Segundo o executivo, o Santander já financiou mais de US$4 bilhões em projetos de armazenamento em diferentes mercados.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine), Rui Altieri, defendeu o avanço dos sistemas de armazenamento com foco na necessidade crescente de potência no sistema elétrico.
Altieri reconheceu a necessidade de aperfeiçoamentos nos mecanismos de formação de preços e contabilização da energia, mas afirmou que a expansão das baterias não deve aguardar a conclusão de todas as discussões regulatórias.
“As baterias precisam entrar por conta da demanda por potência. Se esperarmos a regulação avançar, vamos ficar parados”, afirmou.