Ministro de Minas e Energia afirmou que disputa deverá ocorrer até junho; inicialmente, sinalização era de que certame seria em abril
Estado de SP – 27.02.2026 | Inédito no Brasil, o leilão de sistemas de armazenamento por baterias tem mobilizado o mercado financeiro, com investidores nacionais e estrangeiros atentos à abertura desse novo segmento no setor elétrico. Bancos com atuação em financiamento estruturado de grandes projetos (project finance) identificam forte apetite das empresas pelo certame, embora persista a preocupação com possíveis atrasos no cronograma. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, indicou que o leilão não deve ocorrer em abril, mas em junho — e, caso ultrapasse esse prazo, pode coincidir com o calendário eleitoral e ser postergado para 2027.
Segundo Allan Gabriel, responsável pela área de project finance de energia do Itaú BBA, o modelo em discussão na consulta pública sugere que o leilão de baterias deverá seguir lógica semelhante à dos leilões de transmissão, nos quais o vencedor é remunerado pela disponibilização da infraestrutura. Como os certames de transmissão são tradicionalmente competitivos, a expectativa é que o leilão de armazenamento também registre disputa acirrada. Julio Meirelles, do Santander, avalia que o produto oferece contrato altamente previsível e atende a uma demanda crescente do sistema, o que amplia o interesse do setor privado.
O avanço das fontes renováveis intermitentes, especialmente solar e eólica, tem reforçado a necessidade de sistemas de armazenamento. O aumento da geração distribuída — com painéis solares instalados em residências e comércios — intensificou episódios de curtailment, quando o ONS determina cortes na geração devido ao desequilíbrio entre oferta e demanda. As baterias permitem armazenar excedentes em períodos de baixa carga e injetar energia rapidamente nos horários de pico, sobretudo após o pôr do sol, quando a geração solar diminui. Diferentemente de térmicas e hidrelétricas, que exigem mais tempo de despacho, o armazenamento oferece resposta quase instantânea ao sistema.
Em relação ao porte, o ministro sinalizou volume de 2 GW para o primeiro leilão. Para Meirelles, um montante inferior poderia frustrar expectativas e reduzir a atratividade econômica dos projetos. Já Markus Vlasits, presidente do conselho da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), considera 2 GW adequado como projeto-piloto. Ele observa que a microgeração solar no país já soma cerca de 45 GW, o que indica amplo espaço para expansão do armazenamento, ainda que o volume inicial seja moderado diante do potencial do mercado.
As perspectivas de longo prazo reforçam essa tendência. O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, estima necessidade de 55 GW adicionais de potência instalada até 2034. Cálculos da Absae indicam que as baterias poderiam responder por cerca de 9 GW desse total, o equivalente a 16%. Embora fabricantes estrangeiros possam participar como fornecedores de equipamentos, a expectativa é que empresas tradicionais de geração e transmissão liderem os lances, consolidando o armazenamento como novo eixo estratégico da expansão elétrica brasileira.