Jabutis no PL 5.017/2019: o setor elétrico não pode abrir mão do planejamento

Quando um projeto de lei originalmente destinado a aperfeiçoar os descontos tarifários para atividades essenciais no meio rural se transforma, de última hora, em um texto que pode impor mais de R$ 1 trilhão de custos adicionais ao setor elétrico, algo está profundamente errado.

A imprensa, a exemplo de editoriais de Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão, deu visibilidade a uma preocupação que o setor elétrico já vinha alertando há semanas: a inclusão de “jabutis” no PL 5.017/2019, com potencial para elevar a conta de luz dos brasileiros em cerca de 11% nos próximos anos.

O mais grave é que essa história não começou agora.

Parte dos dispositivos inseridos no projeto resgata propostas que já haviam sido rejeitadas ou retiradas de outras discussões legislativas, como a Lei de Privatização da Eletrobras e o PL das eólicas offshore. Não por acaso, passaram a ser conhecidos no setor como “jabutis-zumbis”: propostas que insistem em voltar, sempre pegando carona em projetos sem qualquer relação com seu conteúdo.

Não é aceitável que mudanças com potencial para gerar impactos bilionários sobre consumidores, empresas e investidores sejam incorporadas a projetos de lei sem os devidos estudos técnicos, sem avaliação de impactos e sem o devido debate com as instituições responsáveis pelo planejamento e pela operação do sistema elétrico.

O setor elétrico não funciona na base do improviso. Cada decisão tomada hoje produz efeitos por décadas, influencia as tarifas e afeta diretamente a segurança do suprimento, e é por isso que planejamento é um pilar do modelo elétrico brasileiro.

Quando esse planejamento é substituído por contratações compulsórias e novos encargos inseridos de última hora, quem paga a conta é o consumidor. E quem perde é o país, que passa a conviver com um ambiente de maior insegurança regulatória e menor capacidade de atrair investimentos.

A aprovação do substitutivo pela Comissão de Infraestrutura do Senado se deu de forma preocupante e incomum: apresentado fora da pauta original, às vésperas do recesso parlamentar, com leitura resumida e sem tempo adequado para análise de alterações que modificam profundamente o setor elétrico. Um projeto dessa dimensão exige transparência e responsabilidade. Não pode ser aprovado a toque de caixa.

O Brasil levou décadas para construir um modelo de planejamento reconhecido internacionalmente, e esse modelo permitiu expandir a oferta de energia com segurança e previsibilidade. Fragilizá-lo para atender interesses pontuais é um retrocesso.

* Artigo de Ruy Altieri, Diretor Presidente da Apine

Gostou? Compartilhe este artigo!
Veja também
notícias relacionadas
ENTRE EM CONTATO
  • +55 61 3226-3130
  • apine@apine.com.br
ENDEREÇO
SHS Quadra 6, Ed. Business Center Tower - Brasil 21 Bloco "C" - Sala 212 - Brasília - DF- CEP: 70316-109
©2023 Apine. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por Fresh Lab Agência de Marketing Digital