O documento cita entre as ações para reduzir o excesso de energia o aumento do consumo, sinal adequado de tarifas e preços e casar a expansão de transmissão com a geração
CanalEnergia – 22.09.2027 | A solução estrutural para os cortes de geração é o principal ponto da agenda dos produtores independentes de energia para os candidatos à Presidência da República. A Apine, que representa o segmento, elaborou documento mostrando que o curtailment é o grande problema dos geradores atualmente.
A agenda é dividida em seis grandes itens, e traz como primeiro ponto a gestão dos cortes para evitar o desperdício de energia renovável. Além de geração eólica e solar, o problema afeta usinas hidrelétricas, que são obrigadas a verter água sem gerar energia. No caso da geração hidráulica, no entanto, não existe regra de compensação pela energia não produzida.
Para o presidente da associação, Rui Altieri, o objetivo, no médio prazo, é acabar com o corte de geração. Contudo, isso não é feito da noite para o dia e demanda uma série de medidas. É preciso aumentar o consumo, dar o sinal adequado de tarifas e preços e compatibilizar as obras de transmissão com a entrada de geração nova.
Sinal de preços
A associação pede a revisão periódica dos subsídios e encargos setoriais, com foco em modicidade tarifária. Alerta que “encargos em excesso, subsídios sem avaliação periódica de custo-benefício e sinais de preço distorcidos comprometem a eficiência do setor.”
Defende ainda a redução do custo da energia elétrica com sinais corretos que incluem preços e tarifas horárias e locacionais. AApine argumenta que a ausência do sinal econômico tem resultado na expansão descoordenada de geração distribuída, com custos excessivos e riscos sistêmicos.
“Hoje é indiferente para o consumidor se ele está consumindo agora ou às 7 horas da noite, quando a energia é mais cara. Nós temos que dar esse sinal para tarifa regulada e intensificar esse sinal na formação de preços,” disse o executivo ao CanalEnergia.
O incentivo ao deslocamento do horário de consumo, com tarifas mais baratas quando há excesso de geração e mais caras na ponta, também reduz o corte de geração. A boa notícia é que esta, assim como outros temas da agenda, é um atividade que está dentro da seara regulatória da Aneel.
Transmissão
Outro tema também relacionado ao curtailment é o descasamento entre a expansão da transmissão e a entrada de novas usinas. Para solucionar o problema, a Apine sugere que o planejamento aproxime o crescimento da rede ao da geração renovável.
Na avaliação dos produtores independentes, faltam linhas para escoar a energia produzida. Além disso, o licenciamento de obras estratégicas é lento. E a coordenação entre geração, transmissão, distribuição e órgãos de planejamento e regulação ainda é insuficiente.
Nesse cenário, o próximo governo terá a oportunidade de modernizar o planejamento setorial e aprimorar a regulamentação, de forma a garantir energia limpa e acessível.
Armazenamento e eletrificação
Dois outros pontos elencados no documento também têm impactos diretos na redução do curtailment. Um deles é o armazenamento de energia, seja em baterias (BESS), seja em hidrelétricas reversíveis (UHRs). Os geradores pedem um marco regulatório estável, que sinalize adequadamente ao mercado.
O governo marcou os dois primeiros leilões de baterias para dezembro desse ano. E promete o primeiro de reversíveis em 2027. O BESS movimentou no ano passado mais de R$ 2,2 bilhões. O valor é três vezes maior que o de 2024.
A EPE calcula que a capacidade instalada de sistemas de armazenamento químico pode chegar a 10 GW até 2035. Para Altieri, o armazenamento vai ajudar muito no excesso de geração.
Da mesma forma, a agenda propõe uma estratégia nacional para incentivar o crescimento da demanda por energia elétrica. As novas cargas capazes de absorver a geração excedente de energia são: data centers, veículos elétricos e plantas de hidrogênio verde.
A eletrificação da frota, no entanto, deve incluir não apenas carros de passeio e veículos de transporte urbano e rodoviário, mas também a malha ferroviária.
Em novembro de 2025, os pedidos de acesso à Rede Básica do Sistema Interligado para data centers chegavam a 26,2 GW. O volume equivale a mais de um quarto da demanda elétrica atual, destaca o documento. As estimativas até 2031 é de US$ 92 bilhões em investimentos. Já a frota de veículos eletrificados cresceu 65,5% no primeiro bimestre desse ano, segundo a Anfavea, que representa as montadoras.
Estabilidade de regras
Além disso, a entidade defende ainda regras estáveis e respeito aos contratos, embora admita que esses princípios já são observados hoje no setor. Altieri alerta, porém, que ter regras definidas não significa que elas não possam mudar, já que os contratos são de longo prazo. Entretanto, qualquer mudança deve ocorrer de maneira previsível.
O argumento da Apine para reforçar esses princípios é que o Brasil precisa de dezenas de bilhões de reais em novos investimentos no setor elétrico. Entretanto, o capital só vem quando os investidores confiam na previsibilidade das regras e se há garantias de que não haverá mudanças abruptas na legislação. Ou seja, com alterações dos contratos já assinados. Por fim, a associação afirma que o país enfrenta hoje uma paralização de investimentos em geração, em razão da
elevação da percepção do risco e dos novos custos setoriais.
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