Contrato longo volta a ser atrativo

Aumento da volatilidade afetou comercializadoras independentes e a previsibilidade no mercado spot de energia

Valor Econômico – 22/05/2026 | A volatilidade recente do mercado livre de energia e os episódios de estresse envolvendo comercializadoras independentes estão levando grandes consumidores industriais a retomarem a contratação de energia no longo prazo. Depois de um período marcado por preços baixos no mercado spot, impulsionados pelos reservatórios cheios entre 2023 e parte de 2024, empresas passaram a rever a estratégia de exposição ao curto prazo. Segundo Itamar Lessa, diretor de comercialização da Casa dos Ventos, a companhia encerrou 2025 com cerca do dobro de contratos de longo prazo em relação ao ano anterior e manteve o ritmo forte em 2026. “O que a gente sugere é que o consumidor deixe de ver a energia só como uma fatura no fim do mês e passe a tratá-la como ativo estratégico”, afirmou.

De acordo com especialistas do setor, o cenário de preços deprimidos criou uma “falsa percepção de abundância energética”, levando muitos consumidores a reduzirem sua contratação antecipada de energia. “Os consumidores passaram a achar que o preço seria baixo para sempre”, disse Lessa. A situação mudou com os impactos climáticos do El Niño em 2024, quando o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) chegou perto de R$ 500/MWh em determinados submercados. Já no primeiro trimestre de 2026, níveis de armazenamento abaixo do esperado voltaram a pressionar os preços, ampliando a percepção de risco entre consumidores expostos ao mercado spot.

Além da volatilidade climática, o mercado passou a conviver com maior cautela financeira após dificuldades enfrentadas por algumas comercializadoras. Para a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica, o movimento reforça a necessidade de critérios mais rigorosos nas negociações. “Agora um vendedor está mais cauteloso para escolher suas contrapartes”, afirmou Rui Altieri, diretor-presidente da entidadeApine. Segundo ele, o amadurecimento do mercado passa também pela compreensão de que “ficar descontratado no mercado de energia elétrica não é uma boa prática”. Altieri acrescentou ainda que “quem dá crédito não é gerador. Quem dá crédito é o sistema financeiro”.

Nesse contexto, consumidores passaram a priorizar contratos com geradores de maior lastro físico e financeiro, enquanto a autoprodução ganhou espaço como alternativa de previsibilidade. O movimento também é impulsionado pela perspectiva de crescimento da demanda associada a data centers, hidrogênio verde e reindustrialização. O Nordeste desponta como polo estratégico devido à oferta abundante de energia renovável. “O Nordeste brasileiro tem todas as condições para receber data centers com energia renovável”, afirmou Lessa. O setor acompanha ainda a tramitação do PL Redata, que prevê incentivos para instalação de data centers e expansão da infraestrutura digital no país.

Na oferta, entretanto, o ambiente permanece desafiador. Projetos renováveis enfrentam dificuldades provocadas pelo aumento do curtailment — cortes de geração determinados pelo ONS — e pela volatilidade intradiária de preços. Cenário que levou a Aneel a revogar mais de 500 pedidos de outorga em 2025, reduzindo o ritmo de novos projetos e valorizando ativos já operacionais ou em construção avançada. Para Allan Gabriel, do Itaú BBA, o médio prazo deve trazer maior concentração no segmento de geração, com empresas maiores buscando eficiência de portfólio para enfrentar riscos relacionados a sazonalidade, cortes de geração e diferenças regionais de preços.

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