Principal fonte da matriz elétrica tem sido usada em momentos críticos e abre debate sobre remuneração por esse serviço
Valor Econômico – 25.05.2026 | As hidrelétricas brasileiras vêm assumindo um novo papel operacional no SIN diante do avanço das fontes renováveis intermitentes, especialmente a solar fotovoltaica. Embora continuem sendo a principal fonte da matriz elétrica, com participação de 57,7% na geração nacional em 2025, as UHEs passaram a operar com menor fator de utilização e maior frequência de partidas e paradas para compensar oscilações de geração e atender aos picos de demanda no início da noite. Estudo da Volt Robotics aponta que as hidrelétricas geraram, em média, apenas 42% de sua capacidade instalada em 2025, o segundo menor nível desde 2010.
O fenômeno decorre da chamada “curva do pato”, intensificada pela expansão da geração solar distribuída e centralizada. Durante o dia, a elevada produção solar reduz a necessidade de despacho hidrelétrico; porém, entre aproximadamente 18h e 21h, quando a geração fotovoltaica cai rapidamente e o consumo aumenta, o ONS passa a demandar respostas rápidas das hidrelétricas. Segundo o Operador, a flexibilidade operacional dessas usinas se tornou essencial para garantir estabilidade, frequência e segurança do sistema elétrico.
Na prática, o novo perfil operacional exige mudanças significativas na rotina das usinas. A Itaipu Binacional, por exemplo, já chegou a dobrar sua participação na geração do sistema em apenas duas horas após determinação do ONS, destacando que uma unidade geradora pode entrar em operação em até 15 minutos. Ele alertou, contudo, que as hidrelétricas foram concebidas para operação contínua e estável, de modo que o aumento das manobras provoca maior desgaste mecânico, acelera a redução da vida útil dos equipamentos e amplia os custos de manutenção.
O tema também preocupa agentes privados do setor. Rodrigo Limp, vice-presidente de regulação, institucional e mercado da Axia Energia, afirmou que as máquinas estão sendo submetidas a um nível crescente de exigência operacional. Como exemplo, citou a UHE Tucuruí, que teria registrado mais de 2 mil manobras de partida e parada apenas em 2025. Segundo ele, esse cenário demanda investimentos adicionais em modernização e manutenção das unidades geradoras. Paralelamente, fatores hidrológicos também agravam o quadro, como a redução da vazão em bacias hidrográficas e a crescente competição pelo uso da água com outros setores econômicos, especialmente o agronegócio.
A discussão regulatória ganhou força entre as entidades do setor. Na avaliação de Rui Altieri, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica, apenas as hidrelétricas são capazes de oferecer, no cenário atual, o nível de agilidade e flexibilidade exigido pelo sistema elétrico, mas precisam ser remuneradas de forma adequada por esses atributos. Segundo ele, há alternativas para reconhecimento, como a criação de uma tarifa fixa específica, como existe para outros serviços. “É um atributo que está entrando de graça para o sistema hoje e que tem valor inestimável”, afirmou.
Já Marisete Pereira, presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica, afirmou que a entidade atua para consolidar um novo arranjo institucional e regulatório que reconheça financeiramente serviços ancilares, capacidade e flexibilidade. Ela destacou que já houve reconhecimento legal desses atributos e que o CMSE solicitou à EPE estudos para definição de metodologia de remuneração desses serviços.