Corte inédito de energia reforça urgência em investir em baterias, diz setor

Pela primeira vez, o ONS determinou suspensão de usinas de menor porte; para setor, risco de colapso tende a crescer sem medidas estruturais para armazenar energia

Folha de SP – 8.jun.2026 | O plano emergencial acionado pelo Operador no último domingo (7) foi considerado eficaz para preservar a segurança operativa da rede, mas reforçou preocupações do setor sobre a crescente dificuldade de administrar o excedente de geração renovável em horários de baixa demanda. A medida envolveu a supressão de 1 GW de geração e marcou a primeira aplicação de cortes também em usinas de menor porte, após o esgotamento das restrições impostas às grandes geradoras.

O cenário é impulsionado pela rápida expansão da micro e minigeração distribuída (MMGD), cuja capacidade instalada já supera 44 GW, representando cerca de 20% da potência de geração do país. O crescimento acelerado da geração solar distribuída amplia a oferta de energia nos períodos de maior insolação, especialmente em dias de menor consumo, aumentando os desafios para o equilíbrio entre geração e carga e elevando os riscos de sobrecarga na rede de transmissão.

A situação foi particularmente crítica no Nordeste, região que concentra grande parte dos parques eólicos e solares do país. No domingo, o ONS chegou a restringir até 11 GW de geração renovável de grande porte, enquanto no sábado (6) os cortes alcançaram 15 GW. Mesmo com essas medidas, o operador avaliou que persistiam riscos à estabilidade do sistema, evidenciando a necessidade de mecanismos adicionais de flexibilidade operativa.

Especialistas apontam que o problema tende a se agravar caso a expansão da geração distribuída continue em ritmo acelerado sem o crescimento correspondente da demanda ou a adoção de soluções de armazenamento. O ex-diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, alertou que a manutenção dos atuais incentivos à MMGD pode ampliar os desafios de operação do sistema elétrico nos próximos anos.

Entidades do setor defendem a implementação de sinais econômicos que estimulem a instalação de baterias para armazenamento de energia. A proposta envolve a adoção de tarifas horárias mais aderentes às condições do sistema, com preços menores em períodos de excedente de geração e valores mais elevados nos horários de ponta. Segundo a Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), esse modelo criaria incentivos para que consumidores armazenem energia durante o dia e a disponibilizem nos momentos de maior demanda.

O governo já anunciou a realização de um leilão de armazenamento de energia, mas agentes do mercado avaliam que a medida tende a atender principalmente usinas de grande porte. Para Rui Altieri, presidente da Associação dos Produtores Independentes de Energia (Apine), a experiência internacional demonstra que sinais tarifários adequados podem acelerar a adoção de baterias pelos consumidores. Na avaliação da entidade, a criação desses incentivos dependeria principalmente de regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sendo considerada um passo importante para aumentar a flexibilidade e a segurança do sistema elétrico brasileiro.

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